Quando morava com os pais, até meados de\r\n2015, Jennifer de Souza, de 22 anos, trabalhava porque queria ajudar a\r\ncomplementar a renda da família, de classe média, que fechava todo mês em torno\r\nde R$ 3 mil. De Mauá, região metropolitana de São Paulo, a jovem aproveitou as\r\nvagas que surgiram com o boom do setor de serviços e comércio. Até que veio a\r\ncrise. De dois anos para cá, foram alguns bicos, nada formal. Hoje, Jennifer\r\nvive das contribuições que consegue nas ruas paulistanas, onde, junto do\r\nmarido, também pede dinheiro para ajudar famílias carentes de sua comunidade.\r\n“Isso é tudo de antes, quando a gente tinha dinheiro. Hoje não compro nada”,\r\ndiz ela, apontando para os acessórios de prata que usa nas mãos e pescoço.
Na casa dos pais, o momento também é outro.\r\nO pai perdeu o emprego de motorista e só a mãe trabalha, com uma pequena banca\r\nde açaí em Mauá.
A linha do tempo de Jennifer é um retrato\r\nda economia brasileira. Em 2015 e 2016 as classes D e E engordaram em mais de 4\r\nmilhões de famílias. Só daqui a seis anos, em 2023, a classe média terá\r\nrecuperado o patamar de participação que alcançou em 2014, quando 28% dos lares\r\nbrasileiros tinham renda mensal de R$ 2.302 a R$ 5.552.
As projeções, realizadas pela Tendências\r\nConsultoria Integrada, fazem parte de estudo que analisa a evolução de famílias\r\ne renda entre as classes no Brasil até 2026, a partir de dados do IBGE. Para\r\nAdriano Pitoli, um dos economistas responsáveis, o quadro se deve ao fim do\r\ncrescimento econômico puxado por consumo e pelo setor de serviços. “Este\r\navanço, que empregava principalmente mão de obra pouco qualificada, não tem\r\nmais espaço. No médio prazo, provavelmente haverá uma dinâmica mais\r\nconcentradora de renda”.
Diferença. A previsão é que a classe A\r\nrecupere os rendimentos mais rapidamente nestes primeiros anos. Enquanto a\r\nrenda total da classe C vai crescer a uma média anual de 2,3% até 2026, a\r\nvelocidade entre os mais ricos será de 4,1%, e de 3% para os rendimentos\r\ntotais. Entre 2003 e 2014, a renda da classe média crescia cerca de 6% ao ano.
Educação não revertida em produtividade,\r\nacesso ao crédito encurtado e fraco ambiente de negócios são listados pelo\r\neconomista Marcelo Neri como entraves à retomada do antigo crescimento da\r\nclasse média.
Diretor da FGV Social, o economista foi\r\nresponsável por cunhar o termo “nova classe média”, em 2008. “Nossa situação\r\nfiscal não comporta um empurrão na classe C por meios tributários”, diz. Para\r\nNeri, o governo precisa enfatizar a necessidade das reformas e se firmar como\r\nagente regulador, e não como um órgão que repassa recursos públicos para a\r\npopulação.
Fonte: Estadão
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